quinta-feira, março 5

Patativa do Assaré - 100 anos

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Patativa , se vivo fosse completaria 100 anos hoje, ele nasceu na Serra de Santana (Assaré-Ce), com o nome de Antonio Gonçalves da Silva, segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva, pequenos proprietários rurais.

Aos 4 anos fica cego de um olho , por causa de uma doença, perde o pai aos 8 anos, e só aos 12 frequenta a escola pela primeira vez e fica apenas 4 meses, antes disso já compunha seus versos e os decorava, isso fez com que ele desenvolvesse uma memória fantástica, sabia seus poemas de cor.

Aos 16 anos sua mãe vendeu uma ovelha e comprou sua primeira viola. Foi quando ele começou a fazer repentes e se apresentar em festas. Por volta dos vinte anos de idade, recebe o pseudônimo de Patativa, por ser sua poesia comparável à beleza do canto dessa ave, era comum chamarem os repentistas da época de patativa, ele acrescentou o nome de Assaré para se destacar dos demais.

Patativa se apresentou como violeiro no norte do pais, depois voltou ao Ceará , foi quando começou a ser reconhecido o seu potencial, seu primeiro livro foi Inspiração Nordestina, de 1956.

Patativa está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré é unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil.

Ele descreve a vida do nordestino de uma forma peculiar, com uma linguagem própria , mas ao mesmo tempo universal, descreve como ninguém os problemas e a vida dura de um povo.

Casou-se em 1936 com Belarmina Paes Cidrão, a dona Belinha, com quem teve 14 filhos, dos quais sete morreram.
Patativa do Assaré faleceu no dia 8 de julho de 2002 em sua cidade natal.



Patativa do Assaré




Obras:
Livros de poesia

1956 - Inspiração Nordestina (2003)
1967 - Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa
1978 - Cante Lá que Eu Canto Cá
1988 - Ispinho e Fulô (2005)
1991 - Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré (Org. com Geraldo Gonçalves de Alencar)
1993 - Cordéis (caixa com 13 folhetos)
1994 - Aqui Tem Coisa (2004)
2000 - Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré (Org. Sylvie Debs)
2001 - Digo e Não Peço Segredo (Org. Guirlanda de Castro e Danielli de Bernardi)
2001 - Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré (Org. Geraldo Gonçalves de Alencar)
2001 - Ao pé da mesa (co-autoria com Geraldo Gonçalves de Alencar)
2002 - Antologia Poética (Org. Gilmar de Carvalho)

Poemas

A Triste Partida
Cante Lá que eu Canto Cá
Coisas do Rio de Janeiro
Meu Protesto
Mote/Glosas
Peixe
O Poeta da Roça
Apelo dum Agricultor
Nordestino Sim, Nordestinado Não
Se Existe Inferno
Vaca estrela e Boi Fubá
Você e Lembra?
Vou Vorá


Patativa teve vários de seus poemas musicados, recebeu inúmeros prêmios , e encanta com sua forma peculiar de retratar o cotidiano de um povo. Um post é pouco para falar desse poeta fantástico. Se quiser saber mais acesse aqui





Triste Partida
Patativa do Assaré

Composição: Patativa do Assaré

Meu Deus, meu Deus. . .

Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai

A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai

Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai

O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai

E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai

Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai

Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai



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segunda-feira, março 2

A origem do Big Brother

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Você sabia?



Que o Big Brother é um reality show que goza de grande popularidade nas mídias de massa, exibido em TV aberta ou canais exclusivos de assinantes, isto nós todos já sabemos.

Sabemos também que este tipo de programa rende muito mais para as operadoras de TV e de telefonia do que para o próprio “vencedor”. Na verdade, o programa na sua configuração atual, BBB 9, é uma verdadeira vitrine de marketing. Há quem o ame e quem o odeie.

A essência do programa consiste em se manter as pessoas monitoradas por câmeras dia e noite naquele ambiente fechado, onde, quem lá se encontra tem que se sujeitar a isso sem direito sobre as imagens. O sucesso do programa fica por conta dos relacionamentos que lá se formam e seus desdobramentos e interações com o público. A audiência decide quem fica e quem sai, e aquele que consegue se manter por mais tempo na casa leva o prêmio.


Agora, cá pra nós, de onde vem esta invenção e por que Big Brother?

O primeiro reality show deste gênero surgiu na Europa, mais precisamente na Holanda, em 1999. John de Mol, executivo de TV e criador do programa, deu a ele o nome de Big Brother, nome de um personagem de uma novela de ficção de George Orwell (literalmante, Irmão Grande, no sentido de irmão mais velho que toma conta dos menores; na ficção de Orwell, líder opressor). Mundo afora, muitos programas semelhantes surgiram, conservando o mesmo nome ou traduzindo-o para o idioma local. Em alguns lugares o programa foi copiado exatamente como o original, mantendo o nome, como foi o caso do Brasil (Big Brother Brasil - BBB).

Em 1949, o escritor Inglês George Orwell publicou um livro intitulado Nineteen Eighty-Four (1984). A estória consiste da descrição de uma sociedade que vive sob um regime repressivo totalitário, em um futuro fictício, vigiada 24 horas por dia. Tem um pouco do “Admirável mundo Novo”, de Aldous Huxley, escrito em 1931.

O personagem Big Brother, que possivelmente na trama não existia, era apenas figura de intimidação, vigiava e manipulava a população dia e noite através de um sistema de TV. Supõe-se inspirado em Stalin e Hitler, dentre outros tiranos. A intimidação era reforçada através de cartazes espalhados pela cidade, em espaços públicos e privados, onde se lia “BIG BROTHER IS WATCHING YOU” (“Big Brother” está de olho em você – ou está “cuidando” de você).

Voltando ao programa brasileiro, e com base no sentido original do nome Big Brother, quem seria o verdadeiro Big Brother no BBB, o Bial ou o diretor da rede de televisão. Afinal, quem manipula os “peixinhos” lá no “aquário”?

Aqui fora, no mundo real, nós também vivemos um gigantesco Big Brother. Em nome da segurança o cidadão perdeu sua privacidade. Onde quer que estejamos, shopping, empresas públicas ou privadas, praças, estradas (essas são cruéis), lá está o “zoião” vigiando a gente.

Será que vamos ganhar um milhão ou querem nos colocar no paredão!?



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Repassando selos e memes

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O Voz Ativa foi agraciado com vários mimos, fico muito feliz com a lembrança e gentileza.

Recebi o selo da Mis do Dose dupla,

Eis as regras do selo:

1) Exibir a imagem do selo “Seu blog é ROXIE!” e escrever essas regras abaixo dele;
2) Colocar quem te deu o selo nos seus blogs indicados;
3) Escrever 5 coisas que são ROXIE (1ª sobre música, 2ª sobre televisão e cinema,3ª três países que gostaria de conhecer, 4ª três cores favoritas e 5ª três hobbies);
4) Indicar 10 blogs que você ache ROXIE;
5) Avisar as pessoas.
Vamos lá:
Música: Adoro música, gosto de boa música, MPB. Rock, blues, samba, Clássica.
Televisão : essa é dificil, pois a tv aberta deixa muito a desejar. Sem Censura,na tv aberta é o único que me agrada de verdade, gosto de documentários, séries, noticiários, Tá na área (programa esportivo).
Filmes: O pianista,A festa de Babete, Monsenhor Vatel, Dança com lobos, O dia depois de Amanhã.
Países: França, Espanha, Itália
Cores: Verde, amarelo, preto.
Hobbies: bordar, blogar, colecionar selos.

Repasso para:
Sopros de Lis
Só pensando
Recanto dos Sonhos
Perfume de Afrodite
Curiosando
Blog do Rúbio
Adão Braga
Blog do Catarino
Jotabe Blog Blog
Mary Pop




Recebi também da Mis Dose dupla, e da Pathy Eu e Minhas Versões o selo olha que blog Maneiro.

As regras são:

1- Exiba a imagem do selo “Olha Que Blog Maneiro” que você acabou de ganhar!
2- Poste o link do blog que te indicou.
3- Indique 10 blogs de sua preferência.
4- Avise seus indicados.
5- Publique as regras.
6- Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7- Envie sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com, juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.

Então eu repasso para:

Luz de Luma
BM- BlogdoMoura
Ponderantes
Gritos Verticais
Jornal da Lua
Leões e Cordeiros
Linking
Mais Atitude
Maninho Express
Mary Pop





Recebi do Rodrigo do Curiosando os tres selos acima.

O "Prêmio Dardos" tem certas regras:

1. Aceitar exibir a distinta imagem.
2. Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
3. Escolher quinze (15) blogs para entregar o "Prêmio Dardos"

Repasso para:

Eu e Minhas Versões
O estrondo
Val é arte na veia!
Vi, li, Ouvi
Apoio Fraterno
Arte Ilumina a Vida - Imagens
Canto da Sol
Tô Conversando
Coisas da Vida
Fofocas de Marte
Juliana Lira
Mariquinha Maricota
O Arroto
Tita Carré agulha e tricô
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Recebi da Rosemary do Mary Pop

As regras são:
1- Aceitar e exibir a imagem;
2- Linkar o Blog do qual recebeu o prêmio;
3- Escolher 15 Blogs para entregar os prêmios.
Repasso para:
Compartilhando as Letras
StreS'sNet
Paula Barros
Toques de Prazer
Sem um sentido
Receitas & Prazeres
Só pensando
Recanto dos Sonhos
Dose dupla
Blog do Pharis
Quiosque Azul
.Blog
Blog do Monthiel
Um Pouco de Tudo
Blog do The Best





Recebi do Daniel do Só Pensando , os selos, blog verdadeiro,e o selo Jovens que pensam.

1º Exiba a imagem do Manifesto e explique do que se trata

“Mostrar que aquela história de que a juventude está perdida é uma generalização tola e sem sentido. Como a autora da proposta explicou: "Existem SIM muitos jovens que pensam e tem seus ideais, que debatem, e que querem mudar o mundo. Mas querer não é o suficiente. Vamos nos unir e mostrar que nem tudo está perdido! Nós podemos fazer a diferença sim!”
2º Poste o link do blog que te indicou
3º Indique 10 blogs de sua preferência para fazer parte dos 'Jovens que Pensam'
4º Avise seus indicados
5 º Publique as regras
6º Confira se os blogs indicados repassaram a imagem e as regras.

Repasso para:

DCH -Fotos e videos
Arquivinho
LUKA FREE
Invariavelmente Variável
blog da MAGUI
Curiosando
Babel.Com
Ai, meus sais!
Eu e Minhas Versões
Adão Braga

Uma semana produtiva a todos.


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sexta-feira, fevereiro 27

Crônicas do dia-a-dia

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O valor que uma infância bem vivida representa para a estabilidade emocional do adulto é realmente inestimável. É fundamental par a resolução dos seus conflitos existenciais.
Por isso, a infância é uma temática tão recorrente na literatura. Tanto na Literatura, a arte da palavra, quanto na literatura especializada, digo: Psicologia, Antropologia, Sociologia, etc.

Autores, nacionais e estrangeiros, eternizaram estereótipos baseados nas vivências das crianças que eles um dia foram, ou nos sonhos que alimentaram. Christian Andersen, Saint-Exupéry, Saramago, Graciliano Ramos, são grandes exemplos de escritores que exploraram magistralmente essas imagens, calcadas na observação da criança que cada um foi. E visivelmente tiveram suas obras marcadas pela infância.

Mas a recordação de imagens, às vezes conflitantes, entre a infância e a “envelhecência”, como diria uma amiga nossa, de vez em quando prega-nos peças. As carruagens de nossas lembranças viram abóboras e os castelos desmoronam.

A crônica a seguir relata um desses eventos.


Por Ivan Rodrigues,

A cristaleira da vozinha


Recentemente, numa roda de conversa fora, uma amiga confidenciou-nos a decepção que experimentara ao voltar à sua terra depois de muitos anos. Fora um daqueles momentos em que você, adulto, vê-se em choque com imagens, outrora deslumbrantes, guardadas do tempo de criança.

Num primeiro momento, o caso nos pareceu banal. Mas ao analisarmos com cuidado observamos que se tratava de uma experiência pela qual todos passamos, mais cedo ou mais tarde. Logo, após uma rápida regressão, todos se deram conta de que aquela passagem relatada pela amiga pode acontecer com qualquer ser humano adulto, ao voltar ao cenário de sua infância para se reencontrar com suas memórias. Não sabemos exatamente como a psicologia denomina este episódio nem é nossa intenção tal abordagem, deixemos isto para Freud, apelidamos o evento de “Síndrome da cristaleira da vozinha”.

Contava a amiga que, quando criança, convivia muito com seus tios, primos, e avós, é claro. A infância não teria graça sem eles. Passou, pois, grande parte de sua infância na casa da sua vozinha, onde brincava muito com seus primos. Aliás, segundo suas próprias palavras, o casarão da vozinha foi palco de muitas traquinagens.

E como toda vovó que se preza, essa também tinha os seus guardados, as suas manias, os seus tesouros. “O tesouro da vozinha era uma luxuosa cristaleira que ficava na sala de visitas. Grandiosa, toda em madeira de lei trabalhada e em verniz, irretocável. Vidros jateados, dobradiças e trancas em bronze, uma relíquia. Ali ficavam guardadas suas mais preciosas louças e seus mais finos cristais”. Pelo menos, foi essa a imagem que ficou impregnada na memória da nossa amiga. A cristaleira era uma espécie de símbolo de respeito e obediência para as crianças, era algo como o fruto proibido daquele pequeno paraíso. Tanto que, “se a vozinha pegasse menino malinando por perto, não ia prestar não! Se botasse a mão nos “cristais” então! Aí o sarapatel tava completo!”.

Mas, como é natural, crianças crescem. E a nossa amiga cresceu e mudou para a capital de mala e cuia. Contudo, as imagens e lembranças daqueles tempos gostosos na casa da vozinha sempre a acompanharam, e, é claro, a imagem da imponente cristaleira. Até que, após muitos anos longe daquele universo lúdico, a amiga consegue voltar ao velho casarão para rever parentes e amigos.
“A vozinha, que Deus a tenha num paraíso cheio de cristaleiras porretas e meninos com cara de anjo, não se encontrava mais lá, no entanto, muitas de suas “coisinhas” eram preservadas num quartinho”.

Ao chegar àquela casa, que tantas lembranças lhe trazia, após cumprimentar a todos e distribuir abraços arrochados, e bença à nova geração de “sonhadores”, a primeira coisa que veio à cabeça da nossa amiga foi o desejo de rever a cristaleira. Ao indagar a uma prima pelo tal móvel, esta a levou até os fundos da casa, onde havia um quartinho cheio de bregueços.

A princípio ela não avistou nada que lembrasse, nem de longe, a cristaleira. A prima, vendo-a meio perdida, apontou, “ali, no canto”. Num misto de ceticismo e decepção a amiga ainda questionou “Tem certeza? É isso aí?”. Num canto, jogado, empoeirado, o tal móvel parecia mais um caixote velho com portas de vidro; e os cristais, meros copos de geléia. A decepção foi visível e sua tristeza indisfarçável. Naquele momento quebrava-se todo o encanto de muitas recordações ligadas àquela imagem e há tanto tempo guardadas na memória. “Talvez tivesse sido melhor nunca ter tornado a vê-la”.

Mundo de criança é mesmo um mundo de sonhos e fantasias. A criança o vê sem críticas ou questionamentos; simplesmente o observa e guarda registros que, bons ou ruins, a acompanharão pelo resto da vida. Suas noções de valores e de espaço são isentas de qualquer lógica ou senso crítico, muito diferentes da idéia que um adulto formaria ao deparar-se com a mesma imagem.

O tema “memórias de infância” tem sido muito explorado pela Literatura. José Saramago explora bastante esse embate de imagens diacrônicas do mesmo objeto. Em As pequenas memórias Saramago afirma “A criança que eu fui não viu a passagem tal como o adulto que se tornou seria tentado a imaginá-la desde a sua altura de homem”. Graciliano Ramos, em Infância, também expõe, com toda a fluidez literária que lhe é peculiar, o divergente conteúdo imagético que reside nas visões de mundo do infante e do adulto: “Assim não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma”.

É por essas e outras que, de vez em quando, as crianças, num acesso de saber, talvez antevendo esses desencantos, saem com pérolas como esta: “Eu queria ser criança se eu pudesse ser sempre uma criança”. Bom, pelo menos assim, nunca seriam desfeitos os encantos do quintal da mãezinha, da oficina do vovô, nem da cristaleira da vozinha, não é mesmo!
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quarta-feira, fevereiro 25

Injeção de ânimo

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Novos desafios: novas leituras



..........Nós nos acomodamos facilmente a situações de aparente conforto e estabilidade. Acomodamo-nos com um empreguinho que nos dê teto e comida, com uma vidinha sentimental sem muitos predicados, enfim, acomodamo-nos com o feijãozinho com arroz.

..........Passamos então a viver segundo o bordão futebolístico “em time que está ganhando não se mexe”. Mas, como nada dura para sempre, um dia a estabilidade do time acaba, o feijãozinho com arroz acaba.

..........A dificuldade maior parece estar em sairmos desta zona de segurança, abrindo mão do conforto aparente para ir à caça de situações novas, desafiadoras, que, apesar das dificuldades iniciais, nos trarão melhorias e nos prepararão para desafios maiores no futuro. Ou seja, a princípio, ninguém quer abrir mão da “estabilidade”, mesmo que visualize uma vida melhor.


..........Esta rápida introdução tem por finalidade sugerir aqui a leitura do livro “Quem mexeu no meu queijo”, de Spencer Johnson, excelente, que fala justamente desse desafio de sair da inércia.

..........É uma leitura rápida e gostosa. Em menos de cem páginas bem diagramadas, o autor, vai cativando o leitor por meio de uma parábola que envolve quatro alegóricos personagens. Johnson brinda-nos com lições para toda vida, ensinando-nos a lidar com aquelas mudanças marcantes com as quais inevitavelmente nos deparamos, quer seja na vida pessoal ou na vida profissional.

..........A propósito, neste exato momento estou encarando um novo desafio: contribuir com matérias para o conteúdo do Voz ativa, e fazê-lo à altura da qualidade e da imagem que se estabeleceram e do público que o freqüenta. Sei que não é fácil. O freqüentador do Voz tem um perfil definido, bom gosto apurado, e com certeza nutre suas expectativas. Aliás, agora sem o trema ( ̈), ele é um frequentador muito mais tranquilo.

..........Trocadilhos à parte, e aproveitando então esta onda de pós-carnaval, é hora de tirar o abadá, lavar a pintura da cara e voltar à luta. Ou melhor, começar a luta. Pois não dizem que as coisas no Brasil só começam depois do Carnaval! Então, está aceito o convite do Voz!

..........Quanto ao livro, quem não o leu, leia. E quem já o fez, vale a pena ler outra vez; uma releitura nunca é igual à primeira, revela sempre novos insights.

..........Ah! E apareça. Comente o livro, o blog, o post, etc. Fique à vontade, a casa é nossa!

..........Um bom dia e boas leituras.
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