domingo, maio 10

Vida

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Second lifes...

Anônimo


Amanheceu.

Abro os olhos e procuro o celular. Na tentativa de alcançá-lo esbarro na taça de vinho que dividimos na noite anterior.Tem o batom dela na borda. Pego o telefone, busco seu nome na agenda e disco: 8867... não atende. Confirmo o numero, ligo outra vez; deixo chamar até cair na caixa postal. Talvez ela não queira atender; prefiro acreditar que ainda esteja dormindo. É muito cedo.

Poderíamos ter passado a noite juntos no hotel, mas Amanda preferiu ir embora naquela noite mesmo. Sem despedidas – disse ela. Seria mais fácil para nós dois. As despedidas nem sempre são bem resolvidas, preferiu evitá-las.

O perfume de Amanda está no telefone, nos lençóis, em mim, inunda o quarto. É como se ainda estivesse por ali. Entro no chuveiro ainda com o cheiro dela em meu corpo. Embora não deseje, preciso livrar-me dele.


Já no aeroporto volto a ligar; de novo caixa postal. No coffee shop, enquanto tomo um cafezinho vou me desfazendo dos indícios da presença dela. Recadinhos da portaria, cartões, mimos. Nesse meio tempo passa um flashback daqueles últimos dias. Levará algum tempo para esquecê-los. Não é nenhum longa-metragem, mas as cenas são fortes. Prossigo apagando minhas pegadas.


“Vôo 3255, embarque imediato, portão D”.




Meu vôo, tenho que ir. Não consegui falar com ela. A caminho do portão de embarque tento novamente. Não atende. Gostaria de dar-lhe mais um beijinho, mesmo que por telefone. O caminho parece longo até a aeronave; recuaria se pudesse. Talvez nunca mais a veja.

“...a partir deste momento desliguem os aparelhos celulares”.

Antes de desligar o aparelho, enquanto caminho para a aeronave, deleto Amanda “definitivamente”. Nome, número, dezenas de mensagens, fotos. Apago tudo.

Sinto-me como se transitasse entre dois mundos incompatíveis. É preciso passar por uma câmara de descontaminação. Ali desfaço-me dos resíduos, dispo-me das roupas de proteção, retiro as máscaras. Mais alguns minutos e estou no ar. É como se todas as conexões se desfizessem ali, na decolagem.

Durmo por duas horas. Os solavancos de uma área de turbulência interrompem meu sono reparador. Logo em seguida a chefe de cabine anuncia: “aeronave em procedimento de descida, afivelem os cintos e retornem o encosto de suas poltronas à posição vertical”.
...

É o fim da catarse. O sono foi a última etapa. A partir dali invisto-me dos acessórios de um outro mundo. Outros perfumes, outros sorrisos, novas expectativas.

“Em Porto Alegre tempo bom, temperatura 25 graus. Tenham um bom dia!”

No desembarque, “nova” recepção. A sensação de estar outra vez em um porto seguro, mesmo que seja outro, é confortável. Coração outra vez acelera. Mas é como acordar de um sonho proibido, inconfessável.

Talvez nunca volte aquele lugar, assim como não voltei a tantos outros. Talvez nunca volte a ver Amanda.

Entre embarques e desembarques, outras Amandas, no celular, na memória.

(...)

Outra vez na sala de embarque... “Voo 3054, para Congonhas, última chamada”...

São Paulo, 18 de julho 2007.
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Avião com 176 pessoas a bordo bate e pega fogo em Congonhas
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Um Airbus A320 com 176 pessoas a bordo que chegava de Porto Alegre se chocou no início da noite desta terça-feira (17 de julho 2007) com um terminal de cargas do aeroporto de Congonhas, São Paulo e pegou fogo. O acidente é o maior da aviação no país, sem sobreviventes.

...............................................................................Foto: agenciabrasil
...
Quantas estórias acabaram ali!
Amanda deve estar aliviada; meu nome não consta da lista de passageiros. Voaria para o Rio naquela tarde.

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sexta-feira, maio 8

Divã

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Estreou nos cinemas dia 17 de Abril , o filme Divã, é inspirado na obra de Martha Medeiros e dirigido por José Alvarenga Jr.

Tem como atriz principal Lília Cabral, e o enredo gira em torno de Mercedes, uma mulher de 40 anos , casada com Gustavo (José Mayer), mãe de 2 filhos, tem uma grande amiga ; Mônica (Alexandra Richter ).

Mercedes resolve procurar um psicanalista, por curiosidade, mas isso vai mudar a sua vida, ela vai descobrir várias Mercedes: ciumenta, sensual ,apaixonada, com cenas que vão do choro ao riso, o que faz com que o filme seja diversão garantida.

O filme ainda conta com a presença de Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond e Paulo Gustavo.

Divã alcançou 1,7 milhão e reais em bilheteria. Desbancou Velozes e Furiosos 4, que conseguiu 1,2 milhão de reais.
Até domingo, em sua segunda semana de exibição, o filme de José Alvarenga já havia levado mais de 500 000 pessoas aos cinemas.
O desempenho de Divã em relação a Velozes e Furiosos é mais impressionante pelo fato de que o filme americano estava sendo exibido até domingo em 222 cinemas e o brasileiro em 180.

Se você ainda não assistiu, vale a pena conferir.


Desejo a todos um bom final de semana.



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quarta-feira, maio 6

O que lhe atrai num blog?

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O Voz Ativa acabou de completar um ano, e eu aqui matutando e me perguntando. Como consegui manter o interesse das pessoas pelo espaço? O que me leva a visitar um blog ? O que me faz voltar?

Uma amiga uma vez me disse os motivos que na sua opinião levam as pessoas a um blog. Foi mais ou menos assim: quando o blog tem um conteúdo de qualidade que bate com o que ela gosta de ler. Mas, segundo ela o que leva as pessoas ao Voz, é a minha pessoa... pois acha que as acolho, sou simpática, mais ou menos isso ...gostaria de lembrar as suas palavras exatas, mas não lembro, se ela aparecer pode me corrigir, claro que essa é uma opinião pessoal, mas se for isso mesmo, fico muito feliz. (esse comentário foi feito antes da chegada do Tony).

Eu visito um blog na maioria das vezes por um comentário que o dono do espaço faz, ou pelo titulo do mesmo, aqui no meu blogrool tem um bom exemplo disso, o Alterado e Sequelado. Como resistir a esse título? Você fica curioso para descobrir o que e quem comanda o espaço.

Visita feita, se o blog não tiver um conteúdo interessante, não volto. Também é muito chato quando você entra num blog e ele é pesado demais, demora um tempão para carregar, o conteúdo é interessante, mas a paciência acaba antes que a página carregue, também não gosto de blogs com muitos anúncios, às vezes tem umas poucas linhas escritas o resto é anúncio e onde você clicar vai abrir uma página de algum anunciante, não dá vontade de retornar à esse tipo de espaço.

Gosto de comentar. Quando comentamos estamos prestigiando quem escreveu o texto que lá está, claro que isso não é obrigatório, observo que a maioria dos comentários são feitos por colegas blogueiros , gostaria de ter mais comentários dos chamados leitores que apenas navegam em busca de novidades ou chegam ao espaço através de uma busca específica.


Quando sei que o dono do espaço costuma responder aos comentários sempre que posso volto para dar uma olhada no que ele respondeu ao meu comentário, você conhece muito da pessoa pelos seus comentários... pois acabam colocando o que realmente pensam , exceto quando elogiam você, não que você não mereça o elogio... mas é que tem pessoas muito gentis e que massageiam o nosso ego.

E vocês o que os faz voltar ? O que não gostam?

Opine, pois a sua opinião pode melhorar o Voz e se você for blogueiro pode melhorar o seu espaço também.


Uma música. Um mimo para a minha amiga Mineira do Matutando (ver link ao lado), que anda meio esquecido. Ela está na terra da Rainha e por isso não tem conseguido atualizar o seu espaço com a frequência que gostaria. Foi no seu espaço que comecei a tomar gosto pelo mundo virtual.



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segunda-feira, maio 4

Festas Juninas

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"O Maior São João do Mundo"



Falar do dia do trabalhador ou do dia das mães, que se aproxima, seria assunto muito previsível hoje. Não que eu os julgue assuntos de menor importância, não, mas acredito que não faltará quem queira falar dos temas durante a semana. Hoje loguei com vontade falar de Festas Juninas.

Dizer que o Brasil é um país continental é outra mesmice, não é mesmo. Mas o clichê me servirá como ponto de partida. Por ser um país continental, o Brasil é rico em identidades regionais que se revelam em manifestações culturais localizadas. No sul as tradições gaúchas são muito fortes, no Amazônas os costumes indígenas e a Festa do Boi (garantido e caprichoso) são as manifestações mais marcantes, no Rio de Janeiro o Carnaval e no nordeste, entre outros eventos, as festas juninas são o sumo da cultura nordestina.

Agora, em maio e junho, tem lugar no nordeste uma batalha cultural homérica. Uma festa onde tudo é grandioso. O título de melhor festa junina do Brasil é bastante disputado por baianos, pernambucanos e paraibanos. Porém a rivalidade se revela maior no eixo Caruaru-Campina Grande.

Trata-se da “briga” entre Caruaru - Pernambuco, e Campina Grande - Paraíba, pelo título do Maior São João do mundo durante as festas juninas. A pendenga é folclórica e nisso quem ganha é o público. O ribuliço já começa em maio e vai até o final de junho. Campina Grande fica a 120 km de João Pessoa, Paraíba, e Caruaru a 132km de Recife, Pernambuco, ambas no meio do sertão nordestino. E as duas distam cerca de 130 km uma da outra. Para quem curte forró e quadrilhas juninas é tudo de bão.

As festas juninas tem sua origem lá no Egito antigo. Quando a região passou ao domínio romano esses costumes chegaram a Europa, principalmente Espanha e Portugal. Muito tempo depois com o domínio português no Brasil, essas tradições chegaram até aqui. A festa tem fundamentação religiosa onde são homenageados Santo Antonio (13/06), São João (24/06), e São Pedro (29/06).

Mas o caboco tem que ser arretado. O evento, ou eventos, que dura cerca de 45 dias reúnem dezenas de bandas de forro e cerca de 200 trios elétricos. E como a briga é pelo título de melhor, tudo é grandioso. A maior fogueira do mundo, a maior pamonha, o maior cuscuz do mundo, e por aí vai. Quem não é o maior tem que ser o mió. Para quem quer conhecer a cultura nordestina e é “doido por forró” não tem tempo mió. É bomdimais!

Tem concurso de quadrilhas, legítimo forró pé-de-serra, bandas de pífaros e cantores regionais. Em Campina Grande tem até o Trem do Forró, com oito vagões de puro forró pé-de-serra. E a culinária local é um atrativo a mais. Irresistível!

Em Caruaru pode-se ver a queima de milhares de fogueiras que iluminam as ruas da cidade em homenagem aos Santos Padroeiros da Festa. Ah, e não esqueça a Feira de Caruaru, patrimônio cultural.

O público é estimado em 1,5 milhão de pessoas durante os festejos, o que gera uma arrecadação de cerca de R$ 20 milhões e mais de 2.000 postos de trabalho. O evento é tão grandioso que é financiado por prefeituras e Governo do Estado.

Qual o melhor? Se é Campina ou Caruaru, é o que menos importa, nessa briga quem ganha é nóis. É só pruveitá o arrastapé e o rela-bucho. Ocê só tem qui dicidi: vai pra Campina ô pra Caruaru?
.
A arenga também fica por conta de cordelistas e repentistas:

***

Meu poeta campinense
Antes que padeça rouco
Vou então falar um pouco
Do seu grande São João
Turistas mais de um milhão
Da nação e até de fora
E por vinte e quatro horas
Tanta dança e mais chamego
Que haja raça e resfolego
Pra aguentar o seu rojão.
***
Mestre Antônio Mulatinha
Tudo o que possa pensar
A cabeça de um cristão
Sobre o que tem num lugar
Numa festa de São João
De fato tem nessa terra
Tem um arraial gigante
Com artistas populares
Dos diferentes lugares
Pipocando o pé de serra
***
Tem nas ruas da cidade
Todo tipo de quadrilha
O que lá se chama drilha
Na voz da modernidade
Tudo que é apresentação
Dos estilos nordestinos
De Xote, Xaxado, hinos
Do Xamego e do Baião
Lá se encontra de verdade
Cobertos de precisão.
***
Tanta gente, meu poeta
Tanta mulher das rendeiras
Tem fogoza e rezadeira
Inocente ou bem esperta
Uns cabras bacamarteiros
Uns antigos cangaceiros
A contar de Lampião
De tudo lá muito presta
Por isso o santo lhe empresta
O primado do São João.
***
Essa cidade arretada
Pra festa descomunal
Fica toda espoletada
Meu poeta Mulatinha
As comidas, as bebidas
As famílias nas calçadas
Bandeirolas, barraquinhas
Fachadas ornamentadas
Vêm lembrar a Xanduzinha
No tempo de embonecada.
***
Poeta da Mulatinha
Tudo lá é exagerado
O cuscuz, o milho assado
A canjica mais pamonha
E a duração da festa
Por isso tudo, amigo meu
Numa afirmação modesta
Juro por teu São Raimundo
Que melhor São João do mundo
É mesmo o nosso e não o seu.


Trecho do cordel "O Melhor São João do Mundo" de Lucas Tenório
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sábado, maio 2

Poesia

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Amor distante


O amor, assim como a matemática, a música, possui uma linguagem universal. Portanto não importa a localização geográfica ou a cultura, as temáticas se repetem. Alguns dos códigos do amor são os perfumes, os olhares, os gestos, o tato, as vibrações; isso todo mundo entende. Não é raro se ouvir falar de pessoas de nacionalidades e linguas diferentes que se conheceram e se deram muito bem. E na linguagem do amor um dos temas mais recorrentes na literatura é o dilema do amor distante, amar alguém que não está com você.

Nas minhas viagens pela leitura deparei-me com este poema do escritor espanhol José Ángel que retrata bem esse tema. Seria desnecessário traduzí-lo, mas vou fazer a minha leitura:


Canción del´amor lejano

Canção do amor distante



Ella no fue, entre todas, la más bella,
pero me dio el amor más hondo y largo.
Otras me amaron más; y, sin embargo,
a ninguna la quise como a ella.
***
Ela não foi dentre todas a mais bela,
porém deu-me o amor mais profundo e intenso
Outras amaram me mais, mesmo assim
a nenhuma amei como a ela.
***
Acaso fue porque la amé de lejos,
como una estrella desde mi ventana...
Y la estrella que brilla más lejana
nos parece que tiene mas reflejos.
***
Talvez por que a tenha amado de longe
como a uma estrela a partir da minha janela
E a estrela que brilha mais distante
nos parece ter mais reflexos.
***
Tuve su amor como una cosa ajena
como una playa cada vez más sola,
que únicamente guarda de la ola
una humedad de sal sobre la arena.
***
Tive seu amor como uma coisa alheia
como uma praia cada vez mais deserta
que simplesmente protege da onda
uma umidade de sal sobre a areia
***
Ella estuvo en mis brazos sin ser mía,
como el agua en cántaro sediento,
como un perfume que se fue en el viento
y que vuelve en el viento todavía.
***
Ela esteve em meus braços sem ser minha
como a água numa jarra sedenta
como um perfume que se foi ao vento
e que um dia volta com ele
***
Me penetró su sed insatisfecha
como un arado sobre la llanura,
abriendo en su fugaz desgarradura
la esperanza feliz de la cosecha.
***
Invadiu-me com sua sede infinita
como o arado sobre a planície
abrindo em sua ação fugaz
a esperança feliz de uma colheita
***
Ella fue lo cercano en lo remoto
pero llenaba todo lo vacío,
como el viento en las velas del navío,
como la luz en el espejo roto.
***
Ela esteve perto à distância
porém preenchia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio
como a luz num espelho quebrado
***
Por eso aún pienso en la mujer aquella,
la que me dio el amor más hondo y largo...
Nunca fue mía. No era la más bella.
Otras me amaron más ... Y, sin embargo,
a ninguna la quise como a ella.
***
Por isso ainda penso naquela mulher
a que amou-me da forma mais profunda e intensa...
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais...no entanto
,
a nenhuma eu quiz como a ela.


José Ángel Buesa


Este e outros poemas podem ser encontrados em poesiacastellana.

***

E temática do amor distante continua... com Paulo Ricardo
***






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