domingo, abril 10

A frieza de um espelho

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A mitologia não conta, mas creio que se Narciso tivesse vivido um pouco mais para conhecer melhor o objeto de sua paixão provavelmente a estória teria sido diferente. Não suportaria tamanha frieza.


Todos eles são iguais: frios, serenos, francos, diretos. Quer seja um daqueles enormes, panorâmicos, ou um diminuto espelhinho de bolso, de nécessaire ou mesmo um espelho d’água, sua sinceridade é contundente. É preciso coragem para mirá-lo sem se abater com suas revelações. Perece que nós não estamos preparados para encarar essa coisa.


Através da luz que não é própria, afirma ele impiedoso, que, passados esses anos, com todos os fios de cabelos brancos, com aquelas ruguinhas marcantes e maduras, sem dúvida, é você que está ali. Sem máscaras, sem fantasias, despido de estereótipos sociais, desprovido da armadura ideológica que você usa lá fora, é você meu caro.


O consolo é que após cruzar a primeira porta, já na rua, na vida, ninguém mais lhe reconhecerá assim tão desnudo, tão real. Só o espelho tem esse poder destruidor sobre ti. É um raio-x da alma, do tempo. Poderia perfeitamente chamar-se Oráculo de Chronos.
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segunda-feira, abril 4

Sonho de consumo

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Os escritores de telenovelas através de novos e criativos enredos têm buscado explorar as fnatasias mais escondidas do ser humano, desde aquelas ligadas à evolução da ciencia, até as mais internas da alma humana. Isso tem dado como resultado bons trabalhos de ficção.

Através da ficção de Walcyr Carrasco com a novela "Morde & Assopra", que estreou dia 21 de março, a rede Globo de televisão acaba de realizar o sonho mais íntimo da população masculina mundial. Um sonho antropológico, machista, escravista e anacronicamente, medieval; o sonho ter uma mulher robô. Ô maravilha! Isso me faz lembrar o filme "Mulher Nota 1000″, de John Hughes.

Já pensou, amigo! Uma mulher que lhe recebe na porta quando você chega do trabalho, que tira o seu chulezão e põe uma sandalia, que não reclama do seu futebolzinho no fim de semana, uma mulher que não reclama do xixi na tampa do vaso, que não tem ciclo, que não sofre com TPM, que não tem enxaqueca na hora de ir pra cama, que faz "isso" e "aquilo". Isso é que é ficção!

Pena que a "robozinha" lá de casa é ainda de uma geração antiga; só lava, passa, cozinha e cuida das crianças. E não tem a interface da Flávia Alessandra. Ô bichinho sonhador é homem, né! Somos eternos adolescentes.

As novelas deviam vir com uma legenda igual à do cigarro: "O Ministério da Cultura adverte: telenovela faz mal à saúde".

Boa semana a todos!
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sábado, abril 2

A caravana passa

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Dentro em pouco nascerá o sol. Brilhará por mim, por ti, e pela noite que lhe serviu de cobertor. Substituirá brilhantemente a lua que acaba de encerrar seu turno. E eu, aqui, perdendo minutos preciosos, lamentando águas passadas, chorando o leite derramado, escrevendo insanidades. As horas se esvaem; com água ou com leite! Detenho-me em detalhes mínimos que o tempo consumira em segundos. Trilho caminhos diferentes a cada dia sem me dar conta da beleza deles. Nem sequer me apercebo dos lírios à beira da estrada. Aliás, nem sei mais qual era a estrada; não adianta tentar voltar. Daqui a pouco será noite outra vez e só então me darei conta de que o mundo continuou girando; o tempo passando, você me esperando... Será sempre assim: comigo ou sem mim, a caravana passa. [...] Agora me dou conta: perdi o bonde! Espero não perder a linha! No próximo eu embarco. Por que tem que ser sempre assim?
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quarta-feira, março 30

Parto de ideias

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Sócrates, filósofo grego, empregava, para fazer seus pupilos descobrirem as verdades por si mesmos, terem suas próprias idéias, um método específico, a Maiêutica. Segundo ele, o processo podia ser definido como a arte de dar à luz as idéias de seus discípulos. Ou seja, consistia em ajudar os outros a terem idéias próprias. Essa metodologia valeu-lhe o apelido de “parteira de ideias”.


A ideia do filósofo pode parecer estranha a princípio, mas nosso cérebro realmente tem suas crias. O que seria de nós se não fosse assim! Só que, muitas vezes, precisamos mesmo do auxílio para colocar nossas idéias para fora. E isto ocorre também quando se trata de ter idéias para escrever.


No entanto, cada pessoa é um caso. Enquanto alguns têm parto espontâneo, outros têm parto induzido. Enquanto alguns têm partos múltiplos, estão sempre cheios de idéias, outros amargam as dores de parir uma cria atravessada, uma idéia que não entra na cabeça de nenhum leitor. Há ainda uns poucos infelizes que parem natimortos. Quanto a estes as parteiras não podem fazer muita coisa.


Raríssimos eleitos, como gatas prenhas, varam a noite, insones, parindo idéias múltiplas. E ao raiar do dia, como felinos orgulhosos lambem suas crias, avaliando cada uma delas. As boas, as bonitas, as geniais. Nenhuma rejeitada, perfeitas. “Saíram de dentro de mim” - diriam os afortunados.


Finalizando este parto: hoje a figura da parteira de idéias continua sendo importante, mas não precisa ser uma pessoa exatamente. Eventos, a vivência diária e as idéias de outros acabam influenciando nossas idéias. E não devemos desprezá-las. Embora, algumas vezes, elas estejam fora do contexto ideal ou vieram prematuras, como esta metáfora atravessada, merecem uma chance para sobreviver. A história está cheia de ideias, aparentemente “malucas”, que sobreviveram.


Afinal, de acordo com “outro gênio”, ter ideias é o nosso diferencial como seres racionais: “penso logo existo”. Pense!

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Se você tem boas idéias escritas participe do concurso Literário Valdeck de Oliveira.



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sábado, março 26

Futebol e poesia

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A poesia não está exatamente na palavra, mas no uso que se faz dela, na leitura que ela pode proporcionar diante de coisas aparentemente sem nenhuma dose de lirismo. A poesia não se prende às coisas em si, mas ao olhar que se lança sobre elas.

Ela pode estar em tudo, em qualquer coisa, mas pode também não se encontrar em coisa alguma se não se tem olhos para vê-la; se não se tem sensibilidade o bastante para perceber a poesia na natureza, nos movimentos, nas cores. Há quem veja poesia até na morte, nas coisas funebres da vida. Por outro lado, a poesia está na arte, na natureza e também no esporte.

O Brasil é um país de muitas cores, muitas paixões e muitos amores. O futebol é uma destas paixões. Eu não sou o que se poderia chamar de um aficcionado por futebol, mas certa vez me apanhei apreciando a poesia dos movimentos do esporte brasileiro, tão apaixonante.


Futebol paixão

Toma-me de teus contendores,
Para que eu possa ficar aos teus pés.
Conduz-me com carinho,
Senão, melhor que me chutes!
Que me xingues de quadrada.
Mas rola comigo na grama,
Leva-me ao peito,
Balança-me na rede!
Depois, beija-me em festa
E carrega-me em teus braços
Para no meio da relva
Começarmos tudo outra vez!


Futebol também é arte! Quando não acaba em pancadaria, também tem sua poesia!

Abraços!
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