quinta-feira, agosto 4

Visitas durante a leitura

Comments
 
É chato quando você está fisgado numa leitura gostosa e alguém ou alguma coisa te interrompe, atrapalha a viagem! Mas, desta vez, foi algo inusitado.
Como tenho feito nos domingos de sol ultimamente, desde que não seja um feriadão tumultuado, vou caminhar pela praia e paro em algum lugar agradável para ler um bom livro ou o jornal.
Naquela ocasião, após uma boa caminhada sob o sol ameno de junho, sentei-me nas pedras da encosta da Boa Viagem, em Niterói. Nos primeiros minutos, fiquei a apreciar a brisa e as arengas matutinas do rochedo com o mar. Vendo que aquele embate não tinha hora para acabar, engatei na leitura. Lia Descartes naquele dia, mais precisamente os textos em que o filósofo busca provar a existência de Deus. Não havia paisagem melhor para servir de pano de fundo e contextualizar a leitura.
O texto fluía, quando, depois de umas duas dezenas de páginas, um movimento diferente na água turva da Baia de Guanabara me chamou a atenção. Não era uma onda quebrando, nem a espuma branca que ela deixa debruando as pedras e deixando-as rendadas de espuma. De inicio não levantei a vista, pensei que fosse um pneu velho ou outro lixo qualquer. Mas fiquei ligado. Tentei prosseguir na leitura. No entanto, logo em seguida o movimento se repetiu. Marquei a página com um marcador muito especial, que havia ganhado de uma amiga, quando estivemos no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, e fiquei a vigiar o que por ventura fosse.
Não demorou muito e a coisa se repetiu. Desta vez eu vi. Era uma tartaruga marinha enorme que resolveu passear por ali e me brindar com sua visita. Devia ter pelo menos uns setenta centímetros de casco, marrom, esverdeado. E, pela movimentação, constatei que eram pelo menos duas delas. Há alguns anos a gente via até golfinhos bailando sobre as águas da baía, mas estas aparições tem se tornado muito raras com a poluição. Contudo, é muito bom perceber que nem tudo está perdido. Ainda há muita vida sob estas águas.
A natureza é mesmo muito pródiga. Até esqueci-me da leitura... Será mesmo necessário tanto Método para provar que Deus existe!
Abraços.







Leia +...
domingo, julho 31

Colhendo poesia

Comments
 
Sair a colher poesia, de certa forma, é semelhante ao que ocorre a alguém que sai a colher flores. É preciso ter os olhos bem abertos, ouvidos do coração despertos e olfato a serviço de olores diversos. Para que, assim, não se perca de vista sequer a mais singela das flores ou o mais suave aroma silvestre, nem se ignore a forma mais sutil. Para isto é bom que se tenha as janelas do coração bem abertas.


Vez por outra retornamos tristes sem nada que possa um simples vaso enfeitar, em raras ocasiões voltamos floridos, com prontas estrofes a rimar. Colhemos letras, montamos palavras. Embora simples flores silvestres, atadas num mesmo feixe, podem com seu perfume inebriar e, de forma sutil, a vida embelezar. Palavras de mãos dadas e flores em feixe bem atadas revelam segredos que numa letra não cabe e que a palavra mais rara não sabe.


Assim seria colher versos. É tal qual pelos jardins andar. Aqui, ali, uma erva daninha pisar, até, por fim, alguma beleza encontrar. Por vezes trazemos braçadas de lindas rosas abertas, por outras, simples botões por desabrochar.


Boa semana a todos!
Leia +...
quarta-feira, julho 27

Abrindo caminhos

Comments
 




Dizia o escritor espanhol Antonio Machado que os caminhos não existem, nós os construímos ao caminhar. Isto é bem verdade. Basta um primeiro passo para começarmos uma nova jornada, por maior que pareça. E também, para darmos uma guinada na vida precisa haver este primeiro passo.

Contudo, com a mesma facilidade com que podemos abrir nossos caminhos, também criamos barreiras, obstáculos para nós mesmos. Aos poucos construímos cercas ou grades intangíveis que vão nos aprisionando em nosso próprio mundinho particular. Assim, não conseguimos estender muito os nossos caminhos. Não conseguimos ir além dos horizontes artificiais que impomos a nós mesmos. É claro que falo de barreiras invisíveis, ou seja, barreiras psicológicas, morais, religiosas, éticas, etc. In suma, limites fundados sobre princípios que muitas vezes até já perderam a validade neste mundo moderno em que vivemos.

Assim, para que possamos dar o primeiro passo e abrir caminhos, como disse Machado, é preciso que antes de tudo tomemos coragem para romper com as barreiras, com as travas que nós nos colocamos e que nos impede de sair da inércia.

A comodidade e o conforto, sonhos de consumo, podem muitas vezes desencadear o mêdo do novo, o receio de viver desafios, de correr riscos. Assim não se abre caminhos. Viver impõe riscos.

Está na hora de revermos os nossos limites!


António Machado (1875-1939).




Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

O poema faz parte de um conjunto de provérbios e cantares.
Leia +...
quarta-feira, julho 20

Coração menino!

Comments
 



Levei meu coração para tomar banho de sol. Ver algo além das grades frias cerceadoras a que se acostumara. Dava gosto de ver tanta alegria! Parecia criança quando desce para o play.


Ao ver-se na luz, naquele espaço infinito, junto a seus pares, correu, pulou, acelerou, fez amizades, brincou com tudo e com todos. Por algumas horas até se esqueceria da sua condição de detento.


Como criança, divertiu-se sem cerimônia. Brincou com brinquedos que não lhe pertenciam, provou nacos do lanche dos coleguinhas, balançou, caiu, levantou, lambuzou-se. Enfim, ali foi criança enquanto pode.


Mas, aquela alegria tinha hora certa para acabar. Na hora de voltar para casa, quem disse que ele se conformava! Todos os amiguinhos já haviam se recolhido, exceto um coração de menina que também insistia em ficar. Aquele coração menino, que experimentava o dom de voar, via então as grades do tempo se fecharem sobre si.


Caía a noite, seu tempo expirava. Foi de cortar coração ter que conduzi-lo de volta.


Ah, coração... me perdoa!?

Leia +...
sábado, julho 16

Um estranho no paraiso

Comments
 


Fonte própria



A FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorre todo ano, geralmente em julho, leva muitos cariocas ao sul do Estado do Rio. São várias as opções de deslocamento até lá. Pode-se chegar pelo ar, pois a cidade dispõe de um aeroporto para aeronaves de pequeno porte; pode-se chegar de lancha; de ônibus de linha regular ou de excursões; de automóvel; moto; há até quem se aventure a fazer os mais de 250 km de bike. A paisagem, após o perímetro urbano do Rio, é de tirar o fôlego em todo o restante do percurso. Compensa qualquer sacrifício.


Para quem vai pela estrada (Rio-Santos), que serpenteia entre o mar e as montanhas, é possível apreciar lindas enseadas, muitas ilhas e pequenas praias paradisíacas. Infelizmente, nem tudo nesta visão do paraíso agrada aos olhos mais atentos.


Mais ou menos pela metade da viagem, no município de Angra dos Reis, o turista depara-se com uma imagem desagradável e contrastante com aquela beleza toda. Logo depois do perímetro urbano de Angra, à esquerda de quem segue para o sul, é possível ver também, bem próximo à estrada, as instalações da Usina Nuclear de Angra I. Um ovo de serpente no ninho do pássaro.


É inacreditável que mesmo depois de tantos exemplos trágicos no uso de material radioativo pelo mundo, o Brasil ainda insista nos projetos das usinas nucleares para a produção de energia elétrica. Nós sabemos que as pesquisas com radioisótopos são importantes para a industria e para a medicina, mas para a produção de energia elétrica a matriz energética brasileira oferece várias outras alternativas. Os projetos voltados para a energia solar e energia eólica, por exemplo, são viáveis e nosso potencial hidroelétrico é indiscutível. Porque então insistir em energia nuclear, cujo projeto se arrasta capengando há mais de 25 anos, a um custo altíssimo e um benefício questionável? Aliás, enquanto o Brasil pretende ainda implantar outras usinas além de Angra III, que ainda nem foi concluída, a Alemanha planeja desativar as suas num prazo de 11 anos.


O mundo recua diante do potencial nefasto da energia nuclear, porque nós devemos ir em frente? Será que não vale aprender com os erros dos outros...





Fonteprópria

Leia +...