terça-feira, agosto 9

INTERNETÊS

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e outras linguagens

Tudo que é novo desperta uma certa resistência inicial. Às vezes até certa aversão. É o instinto de autodefesa. Mas, após um tempo de conflito e detida análise, acabamos por perceber que tudo não passava de puro preconceito, e, baixamos a guarda.
Veja por exemplo o caso da linguagem abreviada que é usada na internet e celular, principalmente por parte dos jovens, o tal do Internetês. Nos chats, fóruns, e-mails, SMS, etc., ninguém escreve mais Português. Embora já se tenha debatido bastante o assunto, muitos pais e professores ainda se descabelam com esta prática. Isto porque o código está indo parar nas redações escolares. Talvez até de forma involuntária.

O vocabulário é vasto. A mensagem abaixo é um pequeno recorte da linguagem que se pratica nos chats:

- Vc naum recebeu mha msg?
- ñ resp pq.?
- naum tow intndndu nd.
- Tbm naum. Xau Bjo

Tudo bem que isso não é a língua padrão, mas, quem ainda se assusta com esse tipo de redação está esquecendo que a língua padrão é apenas uma das variantes da língua Portuguesa, embora seja a variante privilegiada. Mas a língua Portuguesa está viva!
Existe por aí uma infinidade de códigos que usamos e que passam despercebidas, sem o mesmo alarde. Lembra do famoso (saudoso) telegrama? O telegrama é uma mensagem codificada que foi muito usada pelos Correios e ainda tem suas aplicações. Por uma questão de economia de espaço e dinheiro, pois se pagava por palavra, não havia saudações nem fecho, e não se escrevia preposições ou conjunções. O texto tinha que ser todo em maiúsculas e não se usava acentuação nem sinais de pontuação. Portanto, palavras como ATÉ, LÃ, eram escritas ATEH, LAN. Nomes de pessoas e lugares e formas de tratamento costumavam ser aglutinados para formar uma só palavra: VOSSENHORIA (Vossa Senhoria) AVCHILE (Av. Chile), SANDRALIMA (Sandra Lima). O texto poderia ser mais ou menos assim:

CONVIDAMOS VOSSENHORIA COMPARECER AVCHILE 824 VG ATEH 120911 PT FALAR SANDRALIMA PT SDS PT
(Convidamos vossa senhoria a comparecer à Avenida Chile, № 824, até dia 12 de setembro de 2011. Falar com Sandra Lima. Saudações.)

Outro exemplo destes códigos exóticos é o usado em órgãos públicos, principalmente no meio militar, as chamadas Mensagens Rádio. Poderiamos ter uma mensagem assim:

SOL VEX POSSIBILIDADE ENC REL MIL PROMOVIDOS VIA MSG RD AA ESTA OM URGENTE PT
(Solicitamos a vossa excelência a possibilidade de enviar a relação dos militares promovidos via Mensagens Rádio a esta Organização militar com urgência.)

Estes são apenas dois dentre muitos exemplos, onde a motivação era uma questão de economia de espaço e dinheiro. No caso do Iternetês a questão é de tempo, velocidade da informação. Pois, trata-se de conversa em tempo real. Portanto, sem fazer apologia, a linguagem dos chats é apenas mais um código o qual temos que dominar, contextualizar e ter ciência das suas limitações, como qualquer outro código. Mas nada que se deva taxar de “errado” ou “abominável”.


Abrç!






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quinta-feira, agosto 4

Visitas durante a leitura

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É chato quando você está fisgado numa leitura gostosa e alguém ou alguma coisa te interrompe, atrapalha a viagem! Mas, desta vez, foi algo inusitado.
Como tenho feito nos domingos de sol ultimamente, desde que não seja um feriadão tumultuado, vou caminhar pela praia e paro em algum lugar agradável para ler um bom livro ou o jornal.
Naquela ocasião, após uma boa caminhada sob o sol ameno de junho, sentei-me nas pedras da encosta da Boa Viagem, em Niterói. Nos primeiros minutos, fiquei a apreciar a brisa e as arengas matutinas do rochedo com o mar. Vendo que aquele embate não tinha hora para acabar, engatei na leitura. Lia Descartes naquele dia, mais precisamente os textos em que o filósofo busca provar a existência de Deus. Não havia paisagem melhor para servir de pano de fundo e contextualizar a leitura.
O texto fluía, quando, depois de umas duas dezenas de páginas, um movimento diferente na água turva da Baia de Guanabara me chamou a atenção. Não era uma onda quebrando, nem a espuma branca que ela deixa debruando as pedras e deixando-as rendadas de espuma. De inicio não levantei a vista, pensei que fosse um pneu velho ou outro lixo qualquer. Mas fiquei ligado. Tentei prosseguir na leitura. No entanto, logo em seguida o movimento se repetiu. Marquei a página com um marcador muito especial, que havia ganhado de uma amiga, quando estivemos no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, e fiquei a vigiar o que por ventura fosse.
Não demorou muito e a coisa se repetiu. Desta vez eu vi. Era uma tartaruga marinha enorme que resolveu passear por ali e me brindar com sua visita. Devia ter pelo menos uns setenta centímetros de casco, marrom, esverdeado. E, pela movimentação, constatei que eram pelo menos duas delas. Há alguns anos a gente via até golfinhos bailando sobre as águas da baía, mas estas aparições tem se tornado muito raras com a poluição. Contudo, é muito bom perceber que nem tudo está perdido. Ainda há muita vida sob estas águas.
A natureza é mesmo muito pródiga. Até esqueci-me da leitura... Será mesmo necessário tanto Método para provar que Deus existe!
Abraços.







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domingo, julho 31

Colhendo poesia

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Sair a colher poesia, de certa forma, é semelhante ao que ocorre a alguém que sai a colher flores. É preciso ter os olhos bem abertos, ouvidos do coração despertos e olfato a serviço de olores diversos. Para que, assim, não se perca de vista sequer a mais singela das flores ou o mais suave aroma silvestre, nem se ignore a forma mais sutil. Para isto é bom que se tenha as janelas do coração bem abertas.


Vez por outra retornamos tristes sem nada que possa um simples vaso enfeitar, em raras ocasiões voltamos floridos, com prontas estrofes a rimar. Colhemos letras, montamos palavras. Embora simples flores silvestres, atadas num mesmo feixe, podem com seu perfume inebriar e, de forma sutil, a vida embelezar. Palavras de mãos dadas e flores em feixe bem atadas revelam segredos que numa letra não cabe e que a palavra mais rara não sabe.


Assim seria colher versos. É tal qual pelos jardins andar. Aqui, ali, uma erva daninha pisar, até, por fim, alguma beleza encontrar. Por vezes trazemos braçadas de lindas rosas abertas, por outras, simples botões por desabrochar.


Boa semana a todos!
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quarta-feira, julho 27

Abrindo caminhos

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Dizia o escritor espanhol Antonio Machado que os caminhos não existem, nós os construímos ao caminhar. Isto é bem verdade. Basta um primeiro passo para começarmos uma nova jornada, por maior que pareça. E também, para darmos uma guinada na vida precisa haver este primeiro passo.

Contudo, com a mesma facilidade com que podemos abrir nossos caminhos, também criamos barreiras, obstáculos para nós mesmos. Aos poucos construímos cercas ou grades intangíveis que vão nos aprisionando em nosso próprio mundinho particular. Assim, não conseguimos estender muito os nossos caminhos. Não conseguimos ir além dos horizontes artificiais que impomos a nós mesmos. É claro que falo de barreiras invisíveis, ou seja, barreiras psicológicas, morais, religiosas, éticas, etc. In suma, limites fundados sobre princípios que muitas vezes até já perderam a validade neste mundo moderno em que vivemos.

Assim, para que possamos dar o primeiro passo e abrir caminhos, como disse Machado, é preciso que antes de tudo tomemos coragem para romper com as barreiras, com as travas que nós nos colocamos e que nos impede de sair da inércia.

A comodidade e o conforto, sonhos de consumo, podem muitas vezes desencadear o mêdo do novo, o receio de viver desafios, de correr riscos. Assim não se abre caminhos. Viver impõe riscos.

Está na hora de revermos os nossos limites!


António Machado (1875-1939).




Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

O poema faz parte de um conjunto de provérbios e cantares.
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quarta-feira, julho 20

Coração menino!

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Levei meu coração para tomar banho de sol. Ver algo além das grades frias cerceadoras a que se acostumara. Dava gosto de ver tanta alegria! Parecia criança quando desce para o play.


Ao ver-se na luz, naquele espaço infinito, junto a seus pares, correu, pulou, acelerou, fez amizades, brincou com tudo e com todos. Por algumas horas até se esqueceria da sua condição de detento.


Como criança, divertiu-se sem cerimônia. Brincou com brinquedos que não lhe pertenciam, provou nacos do lanche dos coleguinhas, balançou, caiu, levantou, lambuzou-se. Enfim, ali foi criança enquanto pode.


Mas, aquela alegria tinha hora certa para acabar. Na hora de voltar para casa, quem disse que ele se conformava! Todos os amiguinhos já haviam se recolhido, exceto um coração de menina que também insistia em ficar. Aquele coração menino, que experimentava o dom de voar, via então as grades do tempo se fecharem sobre si.


Caía a noite, seu tempo expirava. Foi de cortar coração ter que conduzi-lo de volta.


Ah, coração... me perdoa!?

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