Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Poesia

Às vezes ficamos divagando nos questionando acerca de coisas da existência e acabamos por encontrar respostas em nossos próprios questionamentos. Às vezes ficamos nos lamentando quanto à exigüidade do tempo; nunca temos tempo para nada, ou o tempo nunca é o bastante para o que pretendemos fazer.

Numa dessas divagações me veio a resposta, em forma de outra pergunta: “e se a vida fosse eterna? Será que existiria o sonho do amor eterno?” Possivelmente não. Será que aquele minutinho a mais apreciando uma bela paisagem teria algum valor numa vida supostamente eterna? E o orgasmo, de alguns poucos segundos, teria o mesmo valor, para um amor literalmente eterno? Acho melhor pensar que tudo vai acabar um dia, assim valorizo cada segundo.


Acho que se perderia todo o lirismo de “um minuto interminável” ou de “aproveitar a vida”, por exemplo. Estes meus versos tentam enveredar por estas divagações.

Se a vida fosse eterna

Se a vida fosse eterna
Eu não teria receio de partir
Não ficaria ansioso para retornar
Não contaria as horas pra te ver.
Que importância teria um minutinho a mais com você?

Se a vida fosse eterna
Eu não te daria mil beijos na despedida
Não teria pressa de voltar para casa
Certamente não morreria de saudades.
Por que te mandaria beijos por carta?

Se a vida fosse eterna
Eu não veria graça em um beijo roubado
Que sua intemperança o faz precioso
Que a austeridade dos segundos salva vidas
Perceberia que a intolerância das horas aquece o amor?

Se a vida fosse eterna
Eu não contaria os verões ao teu lado
Não lamentaria os longos invernos
Também não festejaria tuas primaveras
Faria sentido morrer de amor no outono?

Se a vida fosse eterna
Eu não veria no tempo o tempero da vida
Não faria planos pela manhã
Nem sonharia contigo à noite
Por que me preocuparia com as marcas do tempo?

Se a vida fosse eterna
Eu não perceberia valores na exiguidade do tempo
Não me deteria na preciosidade dos minutos
Não perceberia a possibilidade do fim
Faria algum sentido recomeçar?



Chronos, personificação do tempo na mitologia grega.

Justificativa
Ancião: o peso dos anos;
Alado: o tempo voa;
Ampulheta: vigília do tempo;
Foice: o tempo ceifa todos os mortais.

***

Aproveite o seu dia, viva cada minuto como se fosse o último. A vida não recompensa lamentos, a vida recompensa atitudes.

...

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Elogio da loucura


"Com efeito, o que é a vida se suprimis seus prazeres? Merece ela então o nome de vida?... Vós me aplaudis, meus amigos! Ah! Eu sabia o quanto éreis todos muito loucos, isto é, muito sábios, para não compartilhar meu pensamento... Os próprios estóicos amam o prazer; eles não poderiam odiá-lo. Por mais que dissimulem, por mais que difamem a volúpia aos olhos do vulgo, cumulando-a de injúrias as mais atrozes, é puro fingimento! Tratam de afastar os outros dela para que eles próprios a usufruam com mais liberdade. Mas por todos os deuses! Que eles me digam então qual instante da vida não é triste, tedioso, desagradável, insípido, insuportável se não for temperado pelo prazer, isto é, pela loucura. Eu poderia contentar-me aqui em citar o testemunho de Sófocles, esse grande poeta que nunca se terá louvado bastante, e que fez de mim um tão belo elogio quando disse: A vida mais agradável é a que transcorre sem nenhuma espécie de sabedoria. (...)"

Extraído de Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam – 1508.



Esse é um trecho do livro Elogio da Loucura em que Erasmo dá voz à loucura e esta sai em defesa de si mesma, numa apologia auto-elogiosa, tentando justificar sua ação na vida das pessoas. A loucura de que fala Erasmo não é aquela insanidade mental atestada por um psiquiatra, que pode levar alguém a cometer crimes, atrocidades, mas as insanidades que se cometem em nome da emoção deixando em segundo plano a razão, a racionalidade, em benefício de si próprio. Erasmo era teólogo, racionalista e escreveu este texto em 1508 para seu amigo Thomas Morus. É uma critica aos racionalistas e escolásticos ortodoxos que queriam o homem escravo da razão.

Realmente, o que seria de nós se não fosse essa loucura. As pequenas e grandes loucuras! A vida sem uma pitada de audácia, de ousadia seria insuportável. Seria tolerável a vida se a loucura não suprisse as pessoas de um ímpeto vital, irracional e incoerente quando as desilusões e desventuras as enclausuram?

Atitudes como fugir com a pessoa amada, largar o emprego por um ideal distante, a loucura de deixar a casa dos pais em busca de um lugar só seu, a loucura de amar, a loucura de ter filhos, vão dando sabores diferentes ou apimentando a mesmice da vida. Que loucura é a vida!

Loucura é experimentar o proibido, confiar no desconhecido, arriscar a última moeda; loucura é deixar o certo pelo mais gostoso. Que loucura é amar!

Loucura é raptar a mulher amada; loucura é voltar para casa do pai com um filho nos braços. Casar também é loucura, e mais que isso é a loucura de descasar: abandonar um casamento de quinze ou vinte anos, jogar tudo para cima somente para ter de volta sua liberdade e o direito de, outra vez, cometer loucuras. E se esse "louco" for uma mulher, então multiplique-se por dez o tamanho dessa loucura. Para elas seria uma insanidade sem tamanho deixar um relacionamento tão longo, confortável, abrindo mão de “direitos” ou até de filhos e ficar à mercê e de um novo destino. É loucura das grandes; não é qualquer doida que consegue. Vida longa as loucas!

E o que seria dos homens sem as grandes loucuras, loucuras que mudaram o mundo? A loucura de enfrentar a Inquisição quando a fogueira era o destino; a loucura de cruzar os mares quando o vento era a única garantia; a loucura de querer voar quando somente aos pássaros se permitia esse prazer; a loucura de ir à lua quando a terra ainda era desconhecida. Que loucura! Acho que o mundo se move à custa dos loucos!

Vivas aos loucos. Àqueles que tiveram a loucura de ousar, de romper com tabus, a loucura de amar, àqueles que cometeram a loucura de mudar a loucura que é viver. Aos demais, camisa-de-força. (Leiam Erasmo)

Ah, segunda-feira é uma outra "loucura"! Boa semana a todos! Sem insanidades, por favor!

Voz Ativa © 2008 Template customizado e layout por layla - modelo original by:
SkinCorner