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domingo, fevereiro 5

Crianças e a chuva

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Foto: ULTRA.F

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Quando criança pequena, uma das brincadeiras que eu adorava era tomar banho na chuva. Correr, botar barquinhos de papel nos canais, observar o desenho que os raios faziam no céu e esperar o ronco dos trovões. Mas, o que mais me encantava mesmo era o tal do arco-íris...
Nos melhores momentos de minha infância perambulei pela estrada multicolorida. Aquela ponte arqueada, que me transpunha dos mares daqui para os mares de lá, tinha um efeito transcendental. Durante as caminhadas, temendo por um descuido cair lá de cima, evitava a fragilidade do amarelo e as nuances limítrofes de suas faixas; transitava sempre entre o azul e o lilás; quem sabe cruzava com alguma estrela! Vez por outra, vagava entre os verdes procurando frutinhas celestes. Certa vez, depois de quase queimar os pés nas cores quentes, passei a caminhar por cores neutras e deter-me por entre as sombras. Aquela estrada parecia um ambiente de tranqüilidade e fantasia, embora fosse um caminho sempre chuvoso. Aliás, eu não conseguia entender por que nem sempre aquela ponte estava lá!
Da última vez em que fiz a arte de andar pelo arco-iris, quase chegando ao fim da caminhada, olho para trás e percebo que deixei marcas nas faixas por onde andei. Isso nunca havia me acontecido. Faço então o resto do caminho rezando para que a chuva limpe a sujeira que meus trôpegos e despreocupados passos deixaram para trás. Vendo que outras crianças me seguiam de longe, gritei para que apagassem minhas pegadas. Naquele instante, observei que o arco-iris também estava sendo apagado. Assim, sem poder voltar, de alguma forma percebi que deixava de ser criança.
(...)
Enquanto criança a gente vê coisas ou faz coisas que parecem tiradas de contos de fadas. Mais tarde, a gente nem sabe se viveu ou se sonhou...

Pensamento de criança: “Seria bom ser criança se eu pudesse ser sempre uma criança!”
Beijo “crianças”!

Foto: Yasuhide Fumoto



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domingo, maio 23

Memórias das chuvas

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Baixadas as águas e enxugadas as lágrimas, a dor ainda é grande no meio daqueles que se viram apanhados pelas tragédias em conseqüência das chuvas da primeira semana de abril no Rio de Janeiro. Quem perdeu todo seu patrimônio e até vidas, o que é pior, inestimável, jamais esquecerá tamanho capricho da natureza. Famílias inteiras foram dizimadas e suas estórias de vida soterradas com elas sob escombros e muita lama.

Como disse, depois de enxugadas as lágrimas a dor da perda continua, mas quem sobreviveu já consegue fazer algum juízo sobre tudo que viu. Ironicamente, as desgraças também deixam estórias, não só de infortúnios, mas também de luta e de vontade de viver. Impossível não se deixar envolver e tentar fazer alguma coisa pelos que saíram “ilesos”.

No dia em que eu entregava uns colchões que havia doado a um casal vitima da enchente, eles, enquanto carregavam as coisas no caminhão iam me contando o que passaram, e que justamente um colchão havia salvo a vida de suas crianças.

Sem qualquer resquício material de suas vidas antes daquela noite, nem mesmo documentos, só restava aos desabrigados a solidariedade de quem não sofreu com as chuvas e tenha algo, mesmo pouco, para compartilhar.

A estória deles, um casal e três meninos, é no mínimo curiosa. Uma das crianças, o mais novo, é portador de deficiência física, tem dificuldade de locomoção e estava muito fraco, muito magro. Duas semanas antes da fatídica noite de chuva que alagou o Rio de Janeiro, o casal saiu para comprar um colchão inflável para o garoto. O médico havia recomendado há bastante tempo, e, sem dúvida, seria mais confortável para o menino que os ortopédicos comuns. Em parcelas a perder de vista, compraram o tal colchão, mesmo sabendo que iria pesar no orçamento. Mal sabiam que ele seria a “tábua de salvação”.

Na noite do “dilúvio” o pai das crianças acordou já com água sobre a cama. Com a água naquele nível, não seria prudente ligar a luz; acendeu um fósforo e percebeu que o menor flutuava pelo quarto sobre o colchão novo. Como não se molhara, ainda dormia. As águas continuavam subindo rapidamente. Acordou a mulher e, com dificuldade, correu até o outro quarto, onde dormiam num beliche os outros dois. O mais velho, dormindo encima, ainda não se dava conta dos fatos. O de baixo já chorava apavorado com as água e a escuridão.

A situação era desesperadora; alagados dentro da própria casa no meio da noite. O casal não pensou duas vezes, colocou os outros dois meninos sobre o colchão, que agora fazia a vez de bote salva vidas, e, com dificuldade, rebocou os três até praça do bairro onde as equipes da Defesa Civil já começavam a resgatar os moradores. Depois de deixar as crianças em lugar seguro com vizinhos, o casal ainda voltou até a casa para tentar salvar alguma coisa. Já não dava pra fazer mais nada. As águas passavam de dois metros dentro de casa. Pegaram apenas algumas bolsas que ficavam sobre o armário, ajudaram ainda a recolher algumas crianças vizinhas e remaram de volta para o ponto de apoio da Defesa Civil. Desolado, o pai de família vasculhava as bolsas para ver o que havia salvo da enchente. Alguns papéis, contas, muitas contas e o carnê do bendito colchão. Empunhando o comprovante daquela compra abençoada desabafou: - Este eu vou pagar com prazer!

Perderam tudo, menos a vontade de viver e o colchão.


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