quinta-feira, outubro 22

Grande África

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Martha Medeiros

"Você lembra quando a sua mãe dizia pra você baixar o volume da eletrola? Você ria na cara da coroa. É três-em-um. mãe. Três-em-um! Pois hoje quem chama o som de três-em-um merece ser empalhado e doado pra um museu de história natural, e quem chama a mãe de coroa também. Nada revela mais a nossa idade do que o vocabulário. Um amigo meu chegou a fazer uma lista de expressões que foram vencidas pelo tempo, mas meu maior fornecedor era Paulo Francis, que em suas cronicas usava e abusava de termos datados da década de 60. As cronicas de Nelson Rodrigues, tão bem adaptadas para a tevê, também fazem um retrato perfeito da época através da linguagem. Mas como muita gente não gosta nem de Francis, nem de Nelson Rodrigues, o jeito é fazer uma sessão nostalgia, você sabe onde: na casa da coroa.

É lá que voe ainda vai ouvir que sua calça de brim está imunda e que é preciso chamar um auto da praça para levá-la à rodoviária. Mas não ache muita graça. Se abrir o seu diário de adolescente ou reler as cartas que escrevia quando se achava a mais moderna dos mortais, vai encontrar um baú de expressões que, não fazia muito tempo, estavam na crista da onda.

"Querido diário. Ando meio jururu. Não fui convidada para o bota-fora da Penélope. Ah, grande África. A festa vai ser numa big de uma casa mas isso não quer dizer chongas. A Soninha me contou que vai todo mundo na maior estica e que o Rodrigo vai pegar a caranga do pai dele escondido. Credo, se ele for pego na tampinha vai levar o maior carão. Ou até uma sova. A turma acha que eu estou borocochô. Uma pinóia. Só quero sossegar o pito. Se me der na veneta, vou até lá para tirar um sarro, mas entrar na baia eu não entro, que eu não sou furona, e depois, lá só vai ter bocó. Os amigos da Penélope são todos uns bitolados, uns bodosos, não entendem patavina de nada. Eu seu por que a Penélope não me convidou. Ela é gamada no Sérgio, e ele está dando lance me mim. Outro dia foi me buscar na saída co colégio na maior beca e não deu a menor pelota para a Penélope. Aziras. Não tenho nada a ver com o peixe. Nem to para aquela desgranida."

Atire a primeira pedra quem nunca falou assim. Eu mesma me pego, até hoje, usando umas expressões antigas que continuo achando bacana. Mas reciclar é preciso. Sair por aí dizendo que o último filme do Scorsese é do arco é atestar total incompatibilidade com a mídia. Tome umas aulas com a MTV.

Portanto, gurizada medonha, não riam de suas avós, não riam de suas mães, de seus pais, de seus tios. Amanhã o vocabulário de vocês estará morto e enterrado e ainda assim vocês insistirão em dizer "zoar", que já vai ser total careta. Dizer que o cara está caidaço ou que a garota é uma naja vai fazer seus filhos rolarem de rir. Você vai contar como conheceu os pais deles? Que "ficou" com ele no Planeta Atântida? Eles vão ter um treco. Vão achar que vocês se conheceram no fundo de uma caverna, isso sim.

O vocabulário da hora (lembra "da hora"?) não resiste a mais de uma geração. Às vezes, nem a um único verão. Fazer o quê? Continuar tagarelando do jeito que se sabe, com as palavras que encontrar. Só não vale fechar a matraca."

cronica publicada no livro" Topless"