segunda-feira, fevereiro 22

Carpe diem

5 comentários
 

From Wikipedia: Waterhouse 1909


Intertextualidade milenar

Dizem que se conselho fosse bom se venderia. Mas existem determinadas sacadas na vida que duram para sempre. Algumas idéias resistem aos milênios. Não é raro se ouvir de alguém aquele toque: aproveite a vida; o tempo é curto. Esse conselho resiste intacto ao peso e à poeira dos anos, dos séculos, dos milênios que lhe cobrem. E durante todos esses séculos, um toque aqui, um retoque ali o tema ressurge numa nova leitura. O homem já ouve essa dica a mais de dois mil anos. Bota antigo nisso!

No século I a. C. o poeta romano Horácio já vendia esse peixe. Em seu poema Odes, perpetuou a idéia do Carpe diem, literalmente colha o dia, ou aproveite seu dia. Nele Horácio incitava seus contemporâneos a aproveitarem a vida dada a efemeridade de seus prazeres.

A expressão pode ser encontrada em "Odes" (I,, 11.8, em latim) do poeta:

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.


Que, numa interpretação bem livre seria mais ou menos o seguinte: Não te preocupes com o destino ou com o que os deuses nos reservaram. Vamos enfrentar a vida como ela vier. A vida é breve, não alimentemos muitas esperanças. Enquanto falamos o tempo passa: vive o presente, não te preocupes muito com o amanhã. .

Esse tema foi muito explorado durante a Idade Média e dá muito pano pra manga até hoje. É interessante observar, no entanto, como, em diferentes épocas, essa mesma idéia, apesar das perseguições e repressões que sofreu pelo caminho, tem sido recuperada em novas interpretações, mais recentemente, até explorada em novas mídias.

Em 1600, na Inglaterrra, renascimento, o poeta Robert Herrick retoma o tema em seu poema “To the Virgins, to Make Much of Time”, dedicado ás virgens da época, onde sugere que ela aproveitem a vida. Herrick, de forma bem sutil, porém sugestiva, incitava as mocinhas virgens a aproveitarem sua juventude.

To the Virgins, to Make Much of Time

Gather ye rosebuds while ye may,
Old Time is still a-flying:
And this same flower that smiles to-day
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime,
You may for ever tarry.

A primeira estrofe, no inglês arcaico, diz mais ou menos o seguinte:

As virgens, para que aproveitem o tempo
Colham seus botões de rosas enquanto podem
Os bons tempos ainda estão aí
E esta mesma rosa que hoje sorri
Amanhã estará morrendo

Na segunda metade do sec. XVII o poeta brasileiro, do período Barroco, Gregório de Matos, retoma o carpe diem de forma mais enfática, desta vez em seu famosíssimo poema A Maria dos Povos, sua futura esposa:

Discreta e Formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada aurora’
Em teus olhos e boca, o sol e o dia:
Enquanto com gentil descortesia,
O ar que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica rança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda a ligeireza,
E imprime em toda flor sua pisada.
Ó não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra em nada.


Já no sec. XVIII, Tomás Antonio Gonzaga, no conhecido poema neoclássico “Marília”, vem mais uma vez nos alertar para a urgência de se aproveitar a vida enquanto ela pode ainda nos oferecer algum prazer:

Marília de Dirceu

(...)

Que havemos de esperar, Marília bela?
que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde já vêm frias,
e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
aprovei-te o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças,
e ao semblante a graça!

(...)


No cinema o mesmo tema foi muito explorado também, claro, pois um roteiro de cinema tem sempre como pano de fundo a literatura. Em “A Sociedade do Poetas Mortos” filme dirigido por Peter Weir, lançado em 1989 (EUA) volta-se ao tema ao carpe diem. Na pele de um carismático professor de literatuar do High school, Robin Williams, faz ver a seus alunos a efemeridade da vida e a urgência de se vivê-la intensamente e de buscarem a si mesmos. Para isto resgata o poema de Herric To the Virgins, numa cena em sala de aula onde leva seus alunos a avaliarem suas atitudes.

E não para por aí. Em 2003 a banda Fresno, formada em 1999, gravou uma música, rock-romantico, com o nome Carpe diem, cuja letra, embora numa abordagem mais jovem, trata da mesma temática.

Carpe diem


Veja o vídeo abaixo.





Quando se pensa que a idéia se perdeu no tempo, que foi esquecida, ela subitamente reaparece como se nova fosse. Embora a existência humana continue sendo efêmera, fugaz, as boas idéias deixadas pelas primeiras cabeças pensantes não sucumbem aos séculos. Isto é possível graças ao diálogo permanente que o presente mantém com o passado, onde um texto inovador permite uma leitura diferente daqueles que o precederam. E essa idéia particularmente não tem como ser esquecida; está profundamente arraigada às emoções humanas.

Desde Aristóteles o homen não produz qualquer conhecimento sem que este se relacione com alguma coisa elaborada anteriormente, ou seja, ninguém cria do nada. E como disse T. S. Eliot, mais ou menos na mesma linha de raciocínio de Aristóteles, “(...) nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, tem valor isolado. Seu significado, sua apreciação é feita em relação a seus antecessores.”

É uma pena constatar, pela atualidade do tema e pela sua interrelação com o passado, que a condição humana não mudou muito. Nós continuamos sofrendo dos mesmos males da alma e presos a princípios dogmáticos. Padecendo das incertezas, insatisfações, e angústias da vida fugaz.

Aproveitem as boas idéias, aproveitem o dia.
Carpe diem, boa semana pra todos.

5 Comentaram...

  1. Lugirão says:

    Tony, excelente seu texto.

    Pessoalmente procuro viver o hoje da melhor maneira possível, aproveitar ao máximo, afinal amanhã a gente não sabe como vai ser.... procuro não me prender as coisas banais, que só atrapalham e não nos deixa aproveitar o melhor da vida.

    Tem que ser uma meta a ser cumprida , sempre, senão a gente se perde com coisas pequenas que não valem a pena, quero olhar para trás daqui a algum tempo e ver que valeu cada dia vivido.

  2. Magui says:

    Estes ensinamentos devem ser repetidos pq haverá sempre novas gerações e nós que já sabemos não podemos deixar que eles ignorem.
    Bela publicação.

  3. Priscila says:

    Acho q o conceito sempre sera reciclado e acaba mudando a forma de interpretar o carpe diem, pq n podemos esquecer q na idade media era bem mais intenso pois as pessoas morriam aos 35 anos XD, hahahah brincadeira. Adorei o post

  4. Lis says:

    Olá, Tony, Lugi,
    Só vim desejar Carpe diem a todos.
    [adorei a imagem, adoro as pinturas do Waterhouse, muito usei-as em posts, a-d-o-r-o!. ficou ótima com o texto].

    Abraço

    (como sempre me enrolando pra postar - saudades do haloscan!)

  5. Tony says:

    Lu,
    Vc é suspeita para falar dos meus posts, mas só me envaidece. Bjo

    .........
    Magui,

    É isso, as boas idéias tem que ser renovadas sempre. Obrigado

    .........

    Priscila,

    Na Idade Média a urgência de se viver era maior. Vivia-se pouco realmente. Obrigado pelos comentários.

    .........
    Lis,
    Q bom te ver por aqui, q bom q gostou. Estou com saudade das suas janelas.

    bjo

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