quinta-feira, maio 14

Poesia comentada

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Voltando para Ítaca




Quem estudou um pouco de literatura ou aprecia os Clássicos certamente lembra dos poemas épicos de Homero, ou pelo menos já ouviu falar na Ilíada e na Odisséia.
A Ilíada conta, em versos, a Guerra de Tróia e a Odisséia narra, também em versos, a Viagem de Ulysses de volta a Ítaca, sua ilha natal. Em 24 cantos contém 12.000 versos, tratando de vida doméstica e viagens fantásticas.
A narrativa dos poemas de Homero estabeleceu estereótipos presentes até hoje na cultura ocidental. O guerreiro que luta pela sua pátria, Itaca que passa a imagem do lar seguro para o repouso do guerreiro; Penélope, a esposa que espera o marido, incansável.
Apesar do assédio de pretendentes que lhe diziam ter Ulysses morrido em batalha, Penélope esperou por ele por mais de dez anos, tempo que durou a Guerra de Tróia.
Muitas figuras de pensamento ou de linguagem, cunhadas nessa literatura, são ainda revisitadas na literatura moderna. Expressões como “a vingança é um prato que se come frio”, “agradar a gregos e troianos”, “presente de grego”, cavalo de tróia e muitas outras, encontram suas raízes nesses Clássicos gregos.


É admirável a firmeza com que Ulysses persistiu, incansável, na luta para voltar para sua família. Enfrentou ciclopes, monstros marinhos, mas não desanimou, não se desviou de seu objetivo. Voltar para casa. E isto foi fundamental para o sucesso dele, inclusive na luta contra os deuses. Aliás, parece ser o ideal de todo homem ter uma Ítaca para retornar e uma Penélope à sua espera.
Essa, porém, é a visão clássica da história. Alguns séculos depois de Homero, em 1911, o escritor, também grego, Konstantinos Kavafis, teve outra visão da Odisséia, que ele expressou no poema Ithaca. Vamos ver essa idéia?


Ithaca


K. Kavafis.

Se partires para Itaca,
que seu caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Cíclopes
nem o colérico Poseidon te intimidem;
jamais os encontrarás no teu caminho
se alto mantiveres teu pensamento, e
se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Poseidon hás de ver,
se não os levares dentro da alma,
ou se tua alma não os puser diante de ti.
Rogues que o caminho seja longo.
E numerosas as manhãs de verão
as quais viverás com prazer e alegria,
tu hás de entrar em portos nunca vistos
para correr as lojas dos fenícios
e colher o que há de melhor:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas voluptuosos.
A muitas cidades do Egito deves ir
para aprender com os sábios
e de um povo que tanto tem para ensinar.

Tenha sempre Itaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
mas não apresses a viagem nunca.
Melhor que a jornada leve muitos anos
e que teu barco só ancore na ilha
Quando estiver velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar que Itaca te de riquezas.

Uma bela viagem deu-te Itaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Ela já te deu tudo
Nada mais pode te oferecer.
se achas que Ítaca é pobre.
Itaca não te iludiu,
Tu te tornaste sábio,
E viveu uma vida intensa,
e este é o significado de Ítacas.


(Tradução livre, do Inglês)


Existem obstáculos na vida que são inevitáveis. São barreiras que teremos que enfrentar para crescermos física, mentalmente e espiritualmente. Para evoluirmos como seres humanos. Por exemplo, o tempo, as limitações próprias do ser humano, a dor, o aprendizado. Há hora de plantar e de colher. Tudo tem um tempo para acontecer e um período de maturação, não adianta “brigar com os deuses”. Então por que não aproveitar tudo da melhor maneira possível, sem pressa de voltar para Ítaca?
...


Acredito que foi essa a idéia de Konstantinos. Interessante!

Então, voltando para Ítaca, reserve algum tempo para apreciar as flores.
Não apresse sua viagem, viva intensamente cada dia!